O desporto automóvel antes do politicamente correcto

James Hunt 1976 He drove for March, Hesketh, Mclaren and Wolf from 1973 to 1979 He was World Champion in 1976 He  died in 1993

O desporto automóvel está a render-se ao politicamente correcto. Acredito nas boas intenções por detrás destas orientações, mas não posso deixar de questionar o resultado. Num assunto tão delicado, deixei o politicamente correcto em casa…

O mês passado entrevistei o Eng.º Domingos Piedade – em breve publicarei a entrevista aqui na Razão Automóvel. Domingos Piedade foi como sabem, entre outros cargos de relevo, vice-presidente da AMG, manager do Emerson Fittipaldi, e também gestor de carreira de Walter Röhrl. Entre um sem fim de episódios – numa conversa que durou mais de 4 horas… – contou-me um episódio muito engraçado que se passou com ele, o Röhrl e o homem que decidia nos anos 80 para onde iam os milhões de uma famosa tabaqueira.

Domingos Piedade andava a fazer aquilo que lhe competia: arranjar patrocinadores para Röhrl. À última da hora conseguiu um encontro no Mónaco com esse «senhor dos milhões» do tabaco. Ainda a reunião não tinha começado e o Walter Röhrl, do alto do seus 1.87m de altura, fazendo uso da sua conhecida frontalidade virou-se para o responsável da tabaqueira e disse algo como “eu não fumo, nunca fumei, nunca hei-de fumar, e vou dizer a toda a gente para nunca fumar”. O senhor ficou de olhos abertos, incrédulo, e no meio de algum gaguejo virou-se para o Domingos Piedade e disse “I, I, I… like this guy! how much does he want?”. Moral da história? Fecharam o patrocínio.

Como disse, este episódio aconteceu algures no início da década de 80. Se fosse hoje, aposto que o glamour do Mónaco seria substituído por intermináveis e-mail’s trocados entre escritórios de advogados, sob o olhar esfíngico dos responsáveis de cada uma das partes e dos seus fiéis trainees. Em suma, uma valente seca.

Cresci a ver as tabaqueiras a jorrar milhões para as várias disciplinas motorizadas (Fórmula 1, MotoGP, WRC…) e não foi por isso que comecei a fumar. Tal como o Walter Röhrl, não fumo, nunca fumei e nunca hei-de fumar. Também já consumi centenas de páginas de livros sobre o James Hunt e o Barry Sheene e não é por isso que apanho bebedeiras e organizo festas loucas em minha casa. Quer dizer… bem, adiante.

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Voltando ao tema! Com os bolsos cheios de dinheiro das tabaqueiras, o espectáculo era outro – o glamour também. Mas algures em Bruxelas, com a chegada do novo milénio, um grupo de burocratas munidos de psicólogos, sociólogos e teses para todos os gostos, devem ter achado que aquilo tudo era excitante demais. Decidiram acabar com a festa, antes que os mentecaptos dos europeus se deixassem levar pela euforia do tabaco e do álcool. Sabe-se lá…

A Fórmula 1 passou um mau bocado e o MotoGP por pouco não pereceu – valeu ao mundial de motociclismo um fenómeno chamado Valentino Rossi. As verbas diminuíram drasticamente, mas não desapareceram. Agora fingimos todos que a Ferrari e a Ducati não recebem dinheiro às escondidas da Philip Morris. Ao menos antigamente era tudo às claras – e as decorações do carros mais bonitas… já imaginaram voltar a ver o Mclaren-Honda novamente com as cores da Marlboro?

De há uns anos a esta parte, até com as meninas do paddock estes grupos de pressão começaram a implicar. As intenções são boas – não tenho dúvidas disso – mas os resultados voltam a ser duvidosos. Os movimentos que orquestram estas polémicas argumentam que está em causa uma sexualização excessiva do corpo da mulher, que em última análise se traduz numa visão da mulher enquanto objecto. Se não é isto que está em causa, é qualquer coisa muito parecida. Pode até ser a minha ignorância a falar mais alto (dou de barato…), mas olhando para o sorriso rasgado das meninas, custa-me a crer que estejam ali por obrigação.

Esperem só que alguma mente brilhante se lembre que as celebrações no pódio com champanhe são uma exaltação do álcool, e ainda vamos ver os pilotos de fórmula 1 a celebrarem as vitórias com água das pedras. Ou a obrigarem as equipas a terem uma mulher de um lado e um homem do outro nas grelhas de partida, tudo em nome da igualdade de género.

Quanto a mim, tudo isto é desnecessário. Mais do que nunca as pessoas estão informadas dos riscos inerentes a determinados comportamentos. Aceitar ou não as consequências desses actos, é um risco que cabe a cada um assumir. Isto tem um nome… já sei: liberdade. E nenhum dos exemplos que mencionei interfere com a esfera privada de terceiros, daí não entender muito bem este proteccionismo exacerbado.

A minha opinião, eventualmente retrógrada, tacanha e por aí em diante, radica no seguinte pensamento: é toda esta mescla de humanidade pura-e-dura, sem filtros, com elevadas doses de perigo, exagero e estilo de vida rockstar que nos faz gostar do desporto motorizado. Se fosse apenas para saber quem era o mais rápido, bastava a qualificação. Mas não. Nós queremos o taco-a-taco, a jante com jante, a disputa. Tirem-nos isso e matam o desporto.

Déssemos nós ouvidos aos burocratas de Bruxelas, e chegávamos à conclusão que aqueles que nasceram antes da década de 90 já deviam estar todos mortos – eu incluído. Afinal de contas, vimos o Lucky Luke a fumar, andámos de bicicleta sem capacete, brincámos em parques com areia, andámos de baloiço (soube agora que foram proibidos) e limpávamos as feridas com terra. Raios, como é que sobrevivemos?! Porque é da nossa natureza. Parem de a tentar contrariar.

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Retirado de razaoautomovel

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Publicado por

Marcelo Oliveira

Profissional com experiência consolidada na Gestão de Frotas em empresas de serviços de transporte ou com parque automóvel de volume. Mais detalhes em https://marceloxoliveira.com/quem-e-marcelo-oliveira

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